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Vada a bordo, ou vaza!

Escrito por:
  • Jimmy Cygler
segunda-feira, 6 fevereiro, 2012 - 13:13

 

O início de 2012 foi marcado por um contra-exemplo de liderança que chocou o mundo todo e atingiu especialmente aqueles que, como eu, ocupam qualquer tipo de cargo de chefia de uma equipe. Quase um arquétipo de inconsciente coletivo, o capitão que abandonou o navio virou notícia internacional e vergonha nacional italiana. Schettino negou as acusações de ter largado os passageiros não resgatados à própria sorte, embora ligações telefônicas entre ele e o comando em terra confirmem essa triste constatação.

O que leva um líder a deixar suas responsabilidades? Qual deve ser a sua principal preocupação, se não o bem estar e segurança do grupo que comanda? Em prisão domiciliar, Schettino aguarda sua sentença enquanto outros 17 corpos desaparecidos são procurados, fora os 15 já encontrados sem vida até o fechamento deste post. A empresa Costa Crociere ofereceu 25 mil reais de indenização a cada passageiro que não se feriu, além de 30% de desconto em viagens futuras. Só pode ser uma piada de mau gosto.

O jantar regado à vinho com uma passageira no momento do acidente, o atraso no aviso do comando em terra por “medo de um alarme falso”, as suspeitas de que ele tenha pego um táxi e ido direto para um hotel enquanto pessoas morriam dentro do navio que estava sob o seu comando, tudo isso são notícias chocantes. Um verdadeiro cabeça de equipe lidera seu grupo até a sua própria morte. Se não estiver disposto a isso, que abandone (ou nem tome o leme, vaza antes!) muito antes o navio – antes justamente de provocar uma tragédia e não estar disposto a arcar com suas consequências.

A história está recheada de mentores que honraram seus cargos de chefia, estudo que deveria fazer parte da formação de qualquer aspirante a líder antes de aceitar os encargos que vêm com esta posição. Um dos mais célebres foi Ernest Shackleton, comandante do navio Endurance, que tinha o objetivo de sair da Geórgia do Sul e cruzar pela primeira vez a Antártida de ponta a ponta em 1914. Depois de 11 meses parada após bater num banco de gelo, a embarcação naufragou e os 28 homens que estavam a bordo passaram mais cinco meses encalhados em um iceberg.

 

A equipe, portanto, nunca chegou a por os pés na Antártida. Naufragaram antes de chegar ao destino e depois disso a rotina foi de luta diária para se manterem vivos. Foram dois anos com temperaturas na média de 30 graus negativos, frio suficiente para congelar até as roupas. Quando o “calor” do verão começou a derreter as calotas onde eles estavam, foi hora de entrar nos três botes salva-vidas e começar a remar até chegar em terra firme, a inóspita região da Ilha Elephant. Shackleton escolheu cinco homens e juntos remaram mais 800 milhas até a Geórgia do Sul. Imediatamente depois da chegada, voltou para buscar os companheiros que haviam ficado para trás. Em uma situação como esta, que beira a ficção, não houve sequer uma perda graças a esse grande líder.

Em uma situação não menos dramática, mas talvez não tão radical, podemos também citar o modelo dos mineiros chilenos que passaram 69 dias trancafiados em uma mina a 700 metros do solo. Era claro, o grupo precisaria de um líder para sobreviver àquela provação. Foi assim que o topógrafo Luis Urzúa assumiu esta responsabilidade: estabeleceu regras duras para a distribuição de comida e água, para a manutenção da limpeza no local e também conseguiu ser uma importante fonte de equilíbrio coletivo para a equipe. Como um bom líder, foi o último dos 33 a ser resgatado: deixou seus companheiros passarem na frente.

É impressionante ver como, mesmo após quase cem anos, a história e a lição deixadas por Shackleton se repetem em outras versões. Só o exemplo qualifica o líder a ter o respeito de seus subordinados. A postura de calma nas situações adversas e o instante exato de questionar os rumos do time. Se a equipe – a tripulação do mesmo navio - não vê nos olhos, nas atitudes e no coração de seu comandante o comportamento que eles mesmos deveriam ter, o líder terá falhado. Existem preceitos ancestrais que não podem ser relativizados, pois vêm da natureza, do reino animal, da vida na Terra: um líder não abandona seu grupo. Um comandante não abdica de seu posto. Um chefe não deixa o bem-estar de seus funcionários em segundo plano. 

Talvez o alerta tenha servido para despertar consciências e também para destacar a importância de uma atitude íntegra. Fora dos holofotes, recusando-se a vestir a capa de herói, o comandante em terra Gregorio de Falco foi o responsável por gritar por telefone, em uma tentativa desesperada de trazer à luz o capitão do navio: “vada a bordo, cazzo!” – volte a bordo, caramba! Naufrague junto, se for preciso, mas não abandone o barco naufragado enquanto houver nele alguém além de você mesmo.


 

*Jimmy Cygler é Empresário, Presidente da Proxis, foi professor do MBA da ESPM por 13 anos, lutou em quatro guerras em Israel e publicou pela editora Elsevier o livro Quem Mexeu na Minha Vida.

 

 

 

NOTA DA REDAÇÂO: Os textos postados no Blog da HBR Brasil são escritos por autores independentes e não expressam, necessariamente, a opinião da revista e seus editores.

Comentários

Mostrando 14 comentários

Anônimo Qua, 02/15/2012 - 12:51

Parabéns, muito bom o texto.

Anônimo Qua, 02/08/2012 - 16:56

"Não abandone o barco naufragado enquanto houver nele alguém além de você mesmo." Perfeito! Parabéns pelo artigo!

Anônimo Qua, 02/08/2012 - 14:22

FELICITACIONES JIMMY, TU TIENES LA CAPACIDAD DE SER UN LIDER,POR ESO ERES RESPETADO Y QUERIDO POR TODO TU EQUIPO. ESTOY SEGURA QUE TU NUNCA DEJARIAS A TU GENTE SIN PROTECCION POR NINGUN MOTIVO. VALES MUCHO

ALINA GOLDBERG

Anônimo Qua, 02/08/2012 - 14:21

Resolverdor, muito bons exemplos! Great! Hugo Caccuri Junior.

Anônimo Ter, 02/07/2012 - 21:31

O tema é excelente e pelo menos a mim despertou a curiosidade de buscar longe das tragédias os heróis próximos, presentes no mundo real. Infelizmente, a máxima: "só damos valor quando perdemos" aplica-se ao cotidiano do ser humano. Os jornais estão cheios de tragédias. Os heróis surgem das cinzas, quando não das vítimas. É preciso sangue, suor e lágrimas públicas para se ter notoriedade. Claro, um corpo sensual e um bronzeado também parecem atrair a atenção em um mundo superficial. Mas, estamos falando de heróis e líderes. Pessoas que visualizam, sentem, respiram outras vidas. Pessoas que apegadas aos valores pessoais, deslocam-se do comum, abrem espaço no anonimato e apresentam-se como seres humanos e não como executivos, advogados, empresários ou qualquer que seja o rótulo transparente utilizado a frente da essência de cada individuo em desencontro consigo mesmo.
O líder é aquele que enxerga o outro em primeiro lugar. Entende sua posição e preocupa-se com o entorno. Absorve e transpira a responsabilidade pela solução ao invés de simplesmente excluir-se do problema. O líder é aquele espremido entre o dever e o desejo, muitas vezes de sobrevivência. Líder é aquele que se destaca entre líderes e nunca entre comandados.
Mas e os heróis?
Estes são aqueles que miram nos princípios e acertam bravamente no bem estar, na sobrevivência, em um momento de orgulho e de esperança, nunca de si, sempre de muitos e inspiram. Rompem a barreira do “estar” e tornam-se “ser”.
Prazeroso poder ler um texto tão assertivo, com um tema tão popular, principalmente em um mundo sedento por bons exemplos, bons líderes e grandes heróis. Timothy Leary disse: “As palavras são o congelamento da realidade." Neste caso, a sua Jimmy.
Muito bom o texto!!!!

Ricardo Robles

Anônimo Ter, 02/07/2012 - 19:44

Elucide de forma fantástica a mente dos líderes neófitos, dos candidatos a, e de alguns que por acidente se tornaram líderes. Parabéns! Isaac Ivanoff

elson@panvel.com.br Ter, 02/07/2012 - 17:09

Vou usar o texto para discutir com Minha Equipe! Muito bom! Lembra integridade, responsabilidade, lealdade e preocupação genuína com o bem estar dos liderados! Talvez ser Lider é não estar á frente, mas atráz estimulando, para que a Equipe seja a protagonista. Todos tem situações reais (não tão extremas)dentro das Empresas que exijem o mesmo comportamento.

Anônimo Qua, 02/15/2012 - 10:59

No mundo em que nós estamos não é de se surpreender que exista pessoas liderando com este tipo de caráter,espero que este texto sirva pra ensinar o que é ser um verdadeiro líder...

Anônimo Qua, 02/15/2012 - 09:59

Muito boa sua visão de líder.O verdadeiro líder é aquele que estimula, anima sua equipe, é aquele que faz e não aquele que so manda, Jesus foi e é o maoir líder de toda a história, ele servia, fazia e tudo dava certo...

Anônimo Ter, 02/07/2012 - 15:51

F-O-R-M-I-D-Á-V-E-L Jimmy!!!! Vou publicar em nosso site, no grupo do Facebook e Tweetar!(Dino Mocsányi, Portal Consultores www.consultores.com.br)

Anônimo Ter, 02/07/2012 - 14:51

Amei a reflexão!
E acho que a este conteúdo fantástico nos cabe mais uma reflexão "Como um cara desses chega a posição de liderança sem ter sido testado em aspectos tão básicos?"

Abs,

Elenita

Anônimo Ter, 02/07/2012 - 14:01

Jimmy, excelente colocação. Vale lembrar que na verdade são poucos os verdadeiros líderes. Espero que o fato sirva para reflexão. Abs. Dayse

Anônimo Ter, 02/07/2012 - 13:29

Obrigado, Roberto. Eu também torço por esta reflexão em muitos líderes...

Anônimo Seg, 02/06/2012 - 19:09

excelente texto! parabéns!! espero que pretendentes a líder e os líderes atuais possam refletir sobre esse suposto líder de um navio. Abs! Roberto

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