Reificação. Confesso que não entendi seu significado quando entrei em contato com este termo nas aulas de epistemologia. Também não sabia o que era epistemologia, mas depois descobri sua relação com o desenvolvimento do conhecimento científico. E desde então passei a valorizar e admirar o conhecimento epistemológico de negócios, aquele oriundo de pesquisas baseadas em métodos científicos.
Mas ainda restava a tal a reificação e a explicação de que isto era o processo da coisificação das coisas. Algo se torna uma coisa (ou se reificica) quando se torna um mero objeto desprovido de qualquer vínculo. É apenas uma coisa. A escravidão já foi muito discutida como processo de reificiação. Em seguida, o trabalho e o trabalhador também passaram pela mesma discussão. Se você é um empregado e ouve que não é insubstituível, na verdade, está virando uma coisa. E se gostar de revanche, empresas também estão em processo de reificação. Várias delas, em sua maioria, viraram coisas. Postos de combustíveis e farmácias podem servir de exemplos. Se um ou outro deixar de existir, você não vai se importar. Antigamente não era assim. Nossos pais tinham o farmacêutico de confiança. Supermercados, bancos e até serviços médicos estão se reificando.
Mas muitas empresas não querem virar coisas e tampouco querem coisas em sua folha de pagamento. É neste contexto que o artigo Building your Company’s Vision de James Collins e Jerry Porras publicado na Harvard Business Review, edição de setembro/outubro de 1996, ainda é muito relevante. O artigo é o resumo de uma parte do livro Feitas para Durar, best-seller que tornou James Collins em Jim Collins e explica a necessidade de organizações terem valores e propósitos essenciais que inspirem a direção e seus colaboradores. Se isto já fazia sentido naquela época, faz muito mais agora quando boa parte das empresas já não sabe mais o que fazer para se diferenciar da concorrência cada vez mais ágil.
Collins e Porras explicam que ao definirem valores e propósitos essenciais, na verdade, as organizações estarão consolidando sua ideologia visceral, algo cada vez mais raro nas grandes corporações atuais mais preocupadas em resultados trimestrais. A receita para a formulação de uma grande ideologia que oriente a atuação da empresa precisa passar pelo teste do “Cinco por quês (isto é importante)” – orientam.
_ Minha empresa faz “A”!
_ Mas por que fazer A é importante? (1)
_ Porque ao se fazer A se obtém B.
_ Mas por que obter B é importante? (2)
_ Porque de B se consegue C.
_ Mas por que C é importante? (3)
_ Porque com C se chega a D.
_ Mas por que chegar a D é importante? (4)
_ Porque aí se alcança E!
_ E por que alcançar E é importante? (5)
_ Porque então se atingirá F.
_ Bom... então F é o propósito essencial do seu negócio?
O artigo traz outras orientações para organizações que queiram fazer a diferença e com isto, fugir da reificação. Mas só este exercício já é suficiente neste momento.
Pode ser que não consiga ir além do segundo ou terceiro “por quê” para a sua empresa, mas só este esforço, se implementado, já a distanciará das demais coisas concorrentes. E isto é uma missão mais do que possível.
Marcelo Nakagawa é professor e coordenador do Centro de Empreendedorismo do Insper
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