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Inteligência positiva

Escrito por:
  • Shawn Achor
quinta-feira, 12 janeiro, 2012 - 09:02

Em julho de 2010, em meio a uma expansão mundial que a levaria a outros 19 países, a fabricante americana de cremes e cosméticos Burt’s Bees estava passando por enormes mudanças. Numa situação dessas, de alta tensão, muitos líderes atazanam os subordinados com reuniões frequentes ou inundam sua caixa de entrada com pedidos urgentes. No processo, elevam o grau de ansiedade de todos, o que por sua vez ativa a parte do cérebro que processa ameaças — a amígdala — e tira recursos do córtex préfrontal, responsável pela solução eficaz de problemas.

John Replogle, então presidente da empresa, agiu de outra maneira. Todo dia, mandava um e-mail elogiando um membro da equipe por alguma atividade ligada à expansão. Interrompia as próprias apresentações sobre a empreitada para recordar seus gerentes de conversar com as respectivas equipes sobre os valores da Burt’s Bees. No meio da campanha de expansão, pediu que eu facilitasse uma sessão de três horas sobre felicidade com os funcionários. Como me contou um integrante da cúpula um ano mais tarde, a ênfase de Replogle em cultivar uma liderança positiva manteve o envolvimento e a coesão dos gerentes, que promoveram com sucesso a transição para uma empresa internacional.

Esse resultado não devia causar surpresa. Estudos mostram que, quando as pessoas trabalham com um estado de espírito positivo, o desempenho em quase todo plano — produtividade, criatividade, engajamento — melhora. Apesar disso, a felicidade talvez seja o mais incompreendido dos fatores do desempenho. Para começar, a maioria das pessoas acha que o sucesso precede a felicidade. “Quando for promovido, serei feliz”, pensam. Ou “Quando tiver atingido minhas metas de vendas, vou me sentir bem”. Mas, já que o sucesso é um alvo em movimento (assim que atinge a meta, a pessoa estipula uma mais difícil), a felicidade que resulta do sucesso é passageira.

Na verdade, funciona ao contrário: quem cultiva um estado de espírito positivo se sai melhor diante de desafios. É o que chamo de “vantagem da felicidade”: todo resultado da empresa mostra melhora quando o cérebro é positivo. Observei esse efeito em meu papel como pesquisador e ao dar palestras em 48 países sobre o elo entre felicidade e sucesso do trabalhador. E não estou sozinho: numa meta-análise de 225 estudos acadêmicos, os pesquisadores Sonja Lyubomirsky, Laura King e Ed Diener acharam fortes indícios de causalidade direcional entre satisfação com a vida e bons resultados em empresas.

Outro equívoco comum é que nossos genes, o entorno ou uma combinação dos dois determinam o quão felizes somos. É verdade que ambos os fatores têm impacto. Mas a sensação geral de bem-estar de uma pessoa é incrivelmente maleável. Os hábitos que você cultiva, a forma como interage com colegas de trabalho, o modo como encara o estresse — isso tudo pode ser administrado para aumentar sua felicidade e suas chances de sucesso.

Cultive novos hábitos

Ensinar o cérebro a ser positivo não é muito distinto de treinar os músculos na academia. Estudos recentes sobre neuroplasticidade — a capacidade do cérebro de mudar até na idade adulta — revelam que, ao adquirir novos hábitos, a pessoa reconfigura o cérebro.

Fazer um breve exercício positivo todos os dias, por três semanas que seja, pode ter um impacto duradouro, sugere minha pesquisa. Em dezembro de 2008, pouco antes da pior temporada de declaração de impostos em décadas, trabalhei com gerentes de tributação na KPMG em Nova York e Nova Jersey para ver se conseguia ajudá-los a ficar mais felizes (sou um otimista, é claro). Pedi que escolhessem uma de cinco atividades associadas a mudanças positivas:

Colocar no papel três coisas pelas quais eram gratos.

Escrever uma mensagem positiva a alguém de sua rede social de apoio.

Meditar em sua mesa por dois minutos.

Fazer alguma atividade física por dez minutos.

Usar dois minutos para descrever, num diário, a coisa mais importante que tinham vivido nas últimas 24 horas.

Durante três semanas, os participantes realizaram a atividade todos os dias. Dias depois de concluí-do o treinamento, avaliamos tanto esses voluntários quanto um grupo de controle para determinar sua sensação geral de bem-estar. Estavam motivados? Estavam deprimidos? Em todo quesito, a pontuação do grupo de teste era consideravelmente maior do que a do grupo de controle. Quatro meses depois, quando voltamos a avaliar os dois grupos, a turma do experimento ainda apresentava resultados bem melhores em otimismo e satisfação com a vida. Aliás, a nota média dos participantes na escala de satisfação com a vida — considerada por muitos como uma das melhores maneiras de prever a produtividade e a felicidade no trabalho — passara de 22,96 (numa escala de 35 pontos) antes do treinamento para 27,23 quatro meses depois, um aumento importante. Um breve exercício ao dia manteve aqueles gerentes de tributação felizes meses depois de encerrado o programa de treinamento. A felicidade virara um hábito (veja o quadro “Felicidade e resultados da empresa”).

Ajude os colegas

Das cinco atividades descritas acima, a mais eficaz talvez seja interagir de forma positiva com gente em sua rede social de apoio. O forte apoio social está ligado a um número surpreendente de resultados desejáveis. Estudos de Julianne Holt-Lunstad, Timothy Smith e Bradley Layton mostram, por exemplo, que altos níveis de apoio social têm tanta relação com a expectativa de vida quanto a atividade física regular; já o baixo apoio social é tão nocivo quanto a pressão arterial elevada.

Os benefícios do apoio social não são só físicos. Num estudo com 1.648 alunos da Harvard University que realizei com Phil Stone e Tal Ben-Shahar, descobrimos que o apoio social era o maior antecedente da felicidade durante períodos de estresse elevado. Com efeito, a correlação entre felicidade e a escala Zimet de apoio social (critério acadêmico que utilizamos para determinar a interação positiva dos alunos com sua rede social) foi um incrível 0,71 (a título de comparação, a correlação entre tabagismo e câncer é de 0,37).

O foco daquele estudo foi a quantidade de apoio social que os alunos recebiam. Mas, em outra pesquisa, que fiz em março de 2011, descobri que ainda mais importante para a felicidade sustentada e a motivação era a quantidade de apoio social que o aluno dava. Quantas vezes, por exemplo, um estudante ajuda alguém que esteja sobrecarregado de trabalho? Quantas vezes inicia interações sociais no trabalho? Gente que dava apoio social — que assumia parte da carga dos outros, que chamava colegas para almoçar e que organizava atividades na empresa — tinha não só dez vezes mais chance de estar motivada no trabalho do que aqueles que ficavam na sua, mas também tinha 40% mais chance de conseguir uma promoção.

Como funciona o apoio social na prática como ferramenta para a felicidade do pessoal? A Ochsner Health System, uma grande organização de saúde com a qual trabalho, usa uma abordagem que chama de “10/5 Way” para aumentar o apoio social entre trabalhadores e pacientes. Orientamos 11 mil funcionários, líderes e médicos sobre o impacto do apoio social na experiência do paciente e pedimos que alterassem seu comportamento. Se um funcionário estiver a menos de dez pés (três metros) de outra pessoa no hospital, deve fazer contato visual e sorrir. Se estiver a cinco pés (1,5 metro), deve dizer oi. Desde a adoção da 10/5, a Ochsner registrou um aumento no número de visitas de pacientes, alta de 5% na probabilidade de um paciente recomendar a organização e avanço considerável na avaliação de profissionais médicos. O apoio social parece levar não só a funcionários mais felizes, mas também a clientes mais satisfeitos.


Mude sua relação com o estresse

O estresse é outro fator que contribui muito para a felicidade das pessoas no trabalho. Muitas empresas ensinam o pessoal a mitigar o estresse, dando ênfase aos efeitos negativos para a saúde. O problema é que, depois disso, a pessoa se estressa por sentir estresse.

O estresse tem um lado positivo. Em fevereiro de 2011, num projeto com a Pfizer, pedi a executivos que enumerassem as cinco experiências que mais haviam influenciado o que eram hoje. Quase tudo o que relataram envolvera grande estresse — afinal, pouca gente cresce nas férias. Pegue qualquer biografia e o leitor verá o mesmo: o estresse não é só um obstáculo ao crescimento; pode, também, ser seu combustível.

Sua atitude para com o estresse pode mudar drasticamente o modo como ele o afeta. Num estudo que Alia Crum, Peter Salovey e eu fizemos no UBS em meio à crise bancária e à pesada reestruturação, pedimos a gerentes que assistissem a um de dois vídeos — o primeiro retratava o estresse como prejudicial ao desempenho e o segundo mostrava de que forma o estresse contribui para o cérebro e o corpo humanos. Quando avaliamos esse pessoal seis semanas depois, descobrimos que quem tinha assistido ao vídeo do “reforço” tirava nota mais alta na escala Stress Mindset Scale — ou seja, via o estresse como algo que melhorava, em vez de piorar, seu desempenho. Esses indivíduos registraram redução considerável em problemas de saúde e um aumento importante na felicidade no trabalho.

O estresse é parte inevitável do trabalho. A próxima vez que estiver se sentindo sobrecarregado, prove o seguinte exercício: faça uma lista das pressões que está sofrendo. Divida tudo em dois grupos: as que pode controlar (como um projeto em sua lista de afazeres) e as que não pode (o mercado acionário, preços de imóveis). Escolha uma pressão que pode controlar e dê um passo pequeno e concreto para reduzi-la. Com isso, é possível empurrar o cérebro de volta para um estado mais positivo — e produtivo.

Está patente que aumentar a felicidade eleva suas chances de sucesso. Cultivar novos hábitos, apoiar colegas de trabalho e encarar de forma positiva o estresse são boas maneiras de começar.

Comentários

Mostrando 1 comentários

Anônimo sex, 05/17/2013 - 14:00

Bem interessante a felicidade impacta nos resultados que atingimos dia a dia na nossa vida.

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