| Financie a eureca! |
| Nathan Myhrvold |
Um mercado dedicado a financiar inventores e a monetizar suas criações poderia transformar o mundo.
Minha empresa, a Intellectual Ventures, é incompreendida. Já fomos tachados de “patent troll”, um negócio espúrio que compra patentes para mais tarde tirar dinheiro de empresas inocentes. Na verdade, o que estamos tentando fazer é criar um mercado de capitais para a invenção, algo semelhante ao mercado de capital de risco que financia novos negócios e ao mercado de private equity que revitaliza empresas ineficientes. Nossa meta é fazer da pesquisa aplicada uma atividade lucrativa que atraia muito mais investimento privado do que atualmente — para que o número de invenções geradas cresça.
“Ridículo”, diriam alguns. “O ato de inventar não pode ser um negócio por si só. O risco envolvido é muito grande e uma invenção é intangível demais para gerar lucro suficiente por si mesma. O inventar e a invenção não podem ser desmembrados da empresa que transforma a ideia num produto de verdade. E a ideia de criar um mercado líquido para invenções é absurda.”
Não poderia discordar mais. Na década de 1970, diziam o mesmo sobre outro tipo de propriedade intelectual intangível: o software. Naquela época, todo mundo na indústria da informática achava que o software só tinha valor porque ajudava a vender mainframes ou minicomputadores e que jamais seria possível vender software por si só. O resultado é que engenheiros de software trabalhavam para fabricantes de computadores ou para empresas que usavam computadores. Eram pouquíssimos os fornecedores independentes de software, e os que existiam mal davam lucro. Como negócio, o software não tinha futuro. Assim diziam todos.
Estavam todos errados, é claro. Nas três décadas seguintes, o software virou um dos negócios mais rentáveis da história. Sei disso porque, como gerente e, por fim, diretor de tecnologia da Microsoft, assisti a essa incrível história de sucesso de um posto privilegiado.
A ascensão do software se deve em grande medida a dois desdobramentos cruciais. Primeiro, fabricantes de programas aos poucos convenceram o usuário de software — ou informando, ou levando à Justiça — a respeitar a propriedade intelectual e a pagar por algo que, sem isso, o usuário poderia simplesmente copiar. O passo seguinte foi superar problemas de incompatibilidade de sistemas e criar soluções que funcionassem em várias marcas de computador para desvincular, assim, o software do hardware. Quando veio a revolução do micro, o software virou uma indústria por si só.
Creio que a invenção tem tudo para ser o próximo software: um ativo de alto valor que servirá de base para novos modelos de negócios, mercados líquidos e estratégias de investimento. O incrível sucesso da Intellectual Ventures nos últimos dez anos me convence de que, assim como o software, o negócio da invenção funcionaria melhor se fosse desvinculado da produção e desenvolvido independentemente por um mercado de capitais forte que financiasse e monetizasse invenções.
As lições que aprendemos até aqui sugerem que um sistema de capitais completo para a invenção poderia solucionar muitos dos problemas que há muito afligem tanto inventores como consumidores de invenções: financiamento inadequado para a pesquisa aplicada, mercado ineficiente para conectar empresas com as invenções de que necessitam e para monetizar invenções, balcanização de inventores e invenções exigidas para a solução de grandes problemas e um sistema de fiscalização e arbitragem que a um só tempo permite um excesso de infrações e depende demais de ações na Justiça para determinar preços.
Minha empresa — a maior de uma nova geração de firmas de capital de invenção — está liderando o esforço para solucionar esses problemas. Estamos só no começo. Mas tenho certeza de que, se nós e firmas como a nossa derem certo, o sistema do capital de invenção vai turbinar o progresso tecnológico, dar origem a muitos outros negócios e mudar o mundo para melhor.
Caridade não basta
Os Estados Unidos assumiram a liderança mundial na invenção no século 19, quando Eli Whitney, Robert Fulton, Samuel Morse, Nicola Tesla, Alexander Graham Bell, Thomas Edison e outros ajudaram a transformar o país de economia agrária em potência industrial. Essa tradição se mantém até hoje. O americano de modo geral vê na inventividade uma das vantagens competitivas de sua nação. Sabe que a invenção é um possante motor do crescimento econômico. Apesar disso, a invenção recebe pouquíssima atenção ou financiamento direto de fabricantes de produtos, de universidades ou do governo.
Fora das indústrias farmacêutica e de biotecnologia, poucas empresas consideram a invenção, ou a produção de propriedade intelectual patenteada, sua principal missão. A P&D empresarial virou basicamente “D”: desenvolvimento de produtos. É rara a empresa de grande porte na qual “inventar” seja uma categoria ocupacional — embora a atividade exija uma mentalidade distinta, tenha metas distintas e deva ser gerenciada de forma distinta da de postos em pesquisa e desenvolvimento.
Em universidades e agências governamentais que financiam a pesquisa acadêmica, patentes normalmente não pesam em decisões de titularidade ou subvenção. A publicação de pesquisas é premiada, mas a invenção, em geral, não. Essas organizações financiam sobretudo programas sem finalidade concreta voltados à expansão do conhecimento científico. É uma meta digna. Mas é muito diferente da invenção, que aplica o conhecimento científico de novas maneiras para criar algo útil, algo que tenha valor econômico.
Esse menosprezo à invenção se reflete no modo como a atividade costuma ser financiada, o que chamo de modelo da caridade. A vasta maioria da verba de pesquisa de universidades americanas vem de entidades — em geral agências públicas como a National Science Foundation, o National Institutes of Health e o Departamento de Defesa, além de doadores privados — que não nutrem qualquer expectativa de retorno financeiro. Ou seja, bolsas para pesquisa são uma doação, não um investimento.
O grupinho cada vez menor de empresas que ainda financiam a pesquisa de longo prazo tem a mesma mentalidade. Seus líderes raramente tratam a pesquisa como um negócio legítimo; em vez disso, financiam a atividade como um ato de fé — na crença de que as ideias produzidas venham a agregar valor à medida que forem escoando pela organização de produtos.
O resultado desse espírito de caridade é a falta de investimento da iniciativa privada e a dependência excessiva do dinheiro público. É algo indesejável em vários planos. Permite que prioridades do governo, e não o mercado potencial para novas invenções, determinem que financiamento cada área irá receber. Nos EUA, por exemplo, a parcela de recursos federais destinados à saúde básica e à biociência subiu sem parar desde a década de 1950, somando hoje cerca de metade do total. Já a parcela alocada a áreas que produzem uma proporção maior de invenções frutíferas — como a física e a ciência da informação — encolheu.
Um segundo problema é que o grosso do dinheiro público vai para programas tradicionais de pesquisa focados em disciplinas isoladas. Equipes multidisciplinares inovadoras, no entanto, estão muito mais bem preparadas para criar soluções para os desafios cada vez mais complexos que o mundo enfrenta.
Um último problema é que o financiamento público não é garantido. Nos EUA, o aporte federal à pesquisa básica e aplicada, ajustado à inflação, caiu 14% de 2003 a 2007, segundo a National Science Foundation. Embora o governo Obama tenha prometido reverter essa queda, o imenso déficit orçamentário do país vai tornar difícil cumprir essa promessa.
Em vez de apostar no modelo da caridade e em sua excessiva dependência da pesquisa patrocinada pelo governo, deveríamos buscar maneiras de explorar o tremendo poder financeiro do setor privado para financiar a invenção. Vejamos só: o aporte federal à pesquisa acadêmica nos EUA (ajustado à inflação) cresceu 60% de 1983 a 2007. Nesse intervalo, o investimento no setor empresarial pelas indústrias de capital de risco e private equity do país subiu 1.140% e 1.940%, respectivamente. O total de US$ 1,6 trilhão (em dólares de 2008) investido por firmas de capital de risco e de private equity neste período é o triplo dos US$ 537 bilhões que o governo americano gastou em pesquisa acadêmica.
Para que a invenção atraia um investimento equivalente do setor privado, a única saída é tratar a atividade como um negócio voltado ao lucro. Para tanto, precisamos de um mercado de capitais eficiente dirigido por um quadro de profissionais. Tenho absoluta certeza de que se criarmos esse mercado, o investidor comparecerá em peso.
Não espero que a tarefa seja fácil. Há incríveis obstáculos: os altos riscos que acompanham a invenção, o desrespeito por direitos de propriedade intelectual em certos setores e países, a necessidade de muito mais qualificação profissional na emergente indústria do capital de invenção e o estado de desorganização do mundo da invenção. Há, também, um dilema da galinha e do ovo: para atrair investidores, precisamos ser capazes de monetizar invenções de forma eficiente e rentável, mas para organizar esse mercado é preciso a liquidez que só investidores podem oferecer. Esses obstáculos podem ser — e estão sendo — superados. Veja como.
Como administrar os riscos
Um desafio enorme para atrair investidores é, sem dúvida, a natureza altamente arriscada da invenção. Não há como fugir ao fato de que a maioria das invenções malogra: algumas simplesmente não funcionam. Outras funcionam, mas custam caro demais. Outras, ainda, são baratas e funcionam maravilhosamente, mas perdem para inventos ainda melhores. Embora estatísticas sobre o risco real de investir na invenção sejam esparsas, relatórios do governo indicam que apenas 1% a 3% das patentes gera lucro para seus inventores. A taxa de sucesso de empresas é parecida.
Por sorte, outros setores já acharam maneiras de administrar o alto risco. Companhias de seguros agregam apólices em grandes carteiras para diluir o risco — risco que também é distribuído por um mercado de resseguros bem desenvolvido. Fundos de pensão, fundos mútuos e outras modalidades de investimento coletivo montam grandes carteiras de ativos das quais muitos investidores participam.
Podemos aplicar essas abordagens para gerir o risco inerente a novos inventos. Uma única invenção, por si só, em geral tem risco altíssimo. Já se montarmos (como minha empresa fez) uma carteira diversificada de dezenas de milhares de invenções que abrangem uma ampla gama de tecnologias, o risco geral passa a ser bastante administrável.
Naturalmente, é preciso muito dinheiro para montar uma grande carteira de invenções — mas não uma quantia jamais vista. Firmas de capital de risco e de private equity estão acostumadas a levantar milhões ou até bilhões de dólares para um único fundo de investimento. Fundos de porte similar dedicados à invenção garantiriam a escala necessária para cobrir o risco.
Tamanha escala também garantiria outro ingrediente importante: o potencial de ganho. Certas invenções terão sucesso — em alguns casos, explosivo. Ainda que apenas uma patente de uma carteira de 2 mil patentes, digamos, emplaque de verdade, a receita gerada poderia ser de US$ 1 bilhão, retorno muito maior do que o custo da carteira toda.
A fartura de exemplos na vida real prova o princípio. Uma carteira de patentes de porte bastante respeitável, mas não imenso, forma o principal ativo da americana Qualcomm, empresa de capital aberto hoje avaliada em mais de US$ 70 bilhões. O consórcio MPEG-LA, que detém patentes sobre a tecnologia usada em aparelhos de DVD e decodificadores digitais, ganharia mais US$ 1 bilhão ao ano com isso. Outra que também lucraria mais de US$ 1 bilhão ao ano com o licenciamento de invenções é a IBM. Programas similares na Hewlett-Packard, Lucent, Texas Instruments e um punhado de outras grandes empresas de tecnologia supostamente gerariam, cada um, receita líquida anual de mais de US$ 100 milhões.
Há uma óbvia diferença entre investir em fundos de capital de invenção e investir em fundos de capital de risco e de private equity: o horizonte de tempo para ganhar dinheiro com a invenção é muito maior. O típico fundo de capital de risco ou private equity dura dez anos e em geral dá retornos polpudos para o investidor no prazo de cinco. Fundos de capital de invenção exigem muito mais paciência do investidor. Quando a Intellectual Ventures cria um fundo, por exemplo, adicionamos patentes à carteira nos primeiros cinco anos e continuamos a licenciá-las por até 25 anos, até que todas tenham expirado.
Há investidores com essa paciência? Por nossa experiência, a resposta é sim. Vemos dois tipos distintos de investidor entre as várias dezenas que aportaram mais de US$ 5 bilhões em capital aos quatro fundos e à start-up que criamos de 2000 para cá. O primeiro tipo simplesmente encara o capital de invenção como mais uma opção de investimento financeiro, semelhante a derivativos, fundos de hedge, private equity e imóveis. Esses investidores tradicionais incluem fundos de pensão, universidades e fundações, além de famílias e indivíduos abastados.
O segundo tipo é o que chamamos de investidor estratégico, pois busca mais do que retorno financeiro direto. Membros desse grupo — que inclui empresas do ranking Fortune 500 e líderes de mercado em alta tecnologia, telecomunicações, serviços financeiros, aparelhos eletrônicos e e-commerce — são atraídos pela perspectiva de explorar a rede de talentos de invenção da Intellectual Ventures. Estão buscando ajuda para ter ideias revolucionárias, ou querem ser os primeiros a licenciar patentes em nossa carteira. Nossa prática de agregar patentes em áreas específicas permite que o investidor estratégico encontre tudo o que precisa num só lugar.

Patentes precisam ser respeitadas
A principal barreira para o surgimento de um mercado legítimo para invenções e de uma indústria forte e vibrante de capital de invenção não é, contudo, financeira. É cultural.
Em nações ricas, fabricantes de produtos muitas vezes encaram inventores e outros detentores de patentes como adversários, e vice-versa. Mas deveriam ver o inventor como fonte de inovação e confiar nele — e em capitalistas de invenção — o suficiente para expor de que tecnologia nova a empresa realmente precisa. O inventor, por sua vez, deve enxergar fabricantes de produtos e capitalistas de invenção como clientes e acreditar que pagarão um preço justo pelas ideias que usarem. Queremos ser a casamenteira de confiança que contribui para que isso ocorra.
Os entraves culturais são um pouco distintos em economias emergentes, como os centros de tecnologia que despontam na Ásia. Lá, direitos de invenções patenteadas e outros bens intangíveis em geral são simplesmente ignorados. Em comparação com universidades nos EUA, poucas instituições de destaque na Ásia registram patentes — e as que registram raramente se queixam quando fabricantes do próprio país se apropriam de sua criação intelectual sem compensá-las. Queremos demonstrar a dirigentes desses lugares que uma maior atenção aos direitos de propriedade intelectual pode gerar benefícios econômicos imediatos e substantivos e, simultaneamente, produzir tecnologias novas, de alto valor.
Não achamos que será fácil promover essa dupla mudança cultural. Mesmo nos EUA, o desrespeito por patentes é arraigado em partes de certos setores. Embora o respeito à propriedade intelectual seja a pedra angular de alguns setores de alta tecnologia — farmacêutico, biotecnologia, dispositivos médicos e comunicação sem fio, por exemplo —, infelizmente não é o que ocorre em outros, sobretudo o de software, o de computadores e outras áreas ligadas à internet. Essas indústrias — onde “o vencedor leva mais” — impõem extrema pressão competitiva a jovens empresas para que elevem sua participação de mercado a qualquer custo, inclusive copiando ideias dos outros. Até hoje, certas empresas de software e internet defendem a tacanha tese de que “economizar” dinheiro com o licenciamento de patentes (violando-as) é bom, pois libera capital para a expansão.
Para complicar, há grandes fabricantes de hardware que tratam patentes como arma de defesa a ser usada sobretudo na retaliação contra qualquer concorrente que venha a processá-las por violação. Essa estratégia de destruição mútua em geral acaba no licenciamento cruzado ou num impasse, mas o efeito não é benigno: gera um desdém pelo inventor. E, já que universidades e inventores isolados não têm cacife para jogar esse jogo, são simplesmente engambelados por certas empresas. Esse comportamento tende a dissuadir o inventor de trabalhar nessas áreas e a empobrecer nosso sistema de invenção.
Em geral, quem me acusa de “patent troll” é gente que pertence a esses grupos de interesses especiais, que não acham que têm de respeitar as patentes dos outros. Há pouco, numa conferência de negócios, o presidente de uma grande empresa de tecnologia que conheço bastante bem veio a mim e disse: “Imagino que você esteja pensando em me processar”.
Respondi: “Não, imagina. Mas por que a pergunta? Você está pensando em me passar a perna?”.
Ele riu e disse: “É, provavelmente é isso”.
O curioso é que nunca processamos ninguém para defender nossa propriedade intelectual. Não descarto a hipótese, mas a meu ver é um recurso indesejável, pois custa caro, é imprevisível e leva anos.
Sempre há organizações e indivíduos que se sentem ameaçados pelo novo e se opõem ruidosamente a ele com alarmismo e falsas profecias de catástrofe. Já vimos isso antes. Lá atrás, capitalistas de risco foram chamados de “abutres” por tirar o controle de empresas das mãos de seus fundadores. As primeiras firmas de private equity foram tachadas de “bárbaras” e “predadoras” por ameaçar o confortável mundo da gestão empresarial ineficiente. Com o tempo, ambos os grupos passaram a ser vistos como forças positivas na economia — e assim será com capitalistas de invenção.
Há sinais de que isso esteja acontecendo:
• O número de batalhas judiciais por violação de patente nos EUA atingiu um pico em 2004 e desde então vem caindo. À medida que firmas de capital de invenção ajudarem o inventor a receber o pagamento por sua criação e empresas a reduzir o risco de litígio e a adquirir direitos sobre vastos pacotes de tecnologia útil, o número de processos deve cair ainda mais.
• Empresas de TI, que normalmente não se preocupavam em patentear várias de suas invenções, estão entrando com muito mais pedidos de patente a cada ano (a Microsoft hoje é uma das maiores depositantes de patentes no mundo).
• Empresas de tecnologia estão começando a nos procurar atrás de invenções que possam ajudá-las a resolver problemas prementes.
Por isso tudo, não temo que o chamado movimento pela reforma da lei de patentes nos EUA vá prejudicar seriamente nosso avanço. A campanha, liderada por um lobby de grandes empresas de tecnologia, espera enfraquecer os direitos de patente — que considera, basicamente, uma fonte de responsabilidade civil. Mas o outro lado — constituído por empresas como General Electric, Procter & Gamble, 3M, DuPont e Caterpillar, para as quais patentes são ativos empresariais fundamentais — está revidando com força. Em geral, os tribunais têm protegido a propriedade intelectual, e é provável que o Congresso americano siga o exemplo, fazendo certas reformas necessárias, mas não enfraquecendo o sistema de patentes como um todo.
Setor deve se profissionalizar
Outro obstáculo à criação de um mercado de capitais robusto para invenções é algo que todo sistema complexo enfrenta em seus primórdios: a necessidade de atingir uma massa crítica de participantes. O atual mercado de invenções é ilíquido, opaco e disfuncional. Poucos dos atores existentes — incluindo empresas de desenvolvimento de tecnologia, corretores, agentes, fundos de investimento, casas de leilão e bolsas especializadas em propriedade intelectual — operam em larga escala e, com toda sinceridade, a qualidade de seu trabalho varia enormemente.
À medida que nós e outros atores aportarmos uma massa crítica de conhecimento, maior liquidez, maior visibilidade na formação de preços e um conjunto melhor de opções para inventores e usuários de patentes, creio que o mercado passará a funcionar bem e, então, a crescer rapidamente. Com efeito, a compra de patentes por nós já provocou aumento considerável no número de corretores de patentes no mercado. Com o tempo, surgirão novas empresas para preencher os diversos nichos do ecossistema de invenção. Veremos uma indústria de invenção mais intrincada e eficiente, povoada por localizadores e aglutinadores profissionais de patentes, avaliadores e analistas de risco, financiadores e agentes de vendas — e outros papéis ainda não concebidos.
De nossa parte, a Intellectual Ventures quer ser a primeira firma de capital de invenção com uma gama completa de serviços. Assim como firmas de capital de risco e private equity, levantamos dinheiro junto a investidores, criamos ativos nós mesmos (com o patrocínio de inventores) e compramos ativos de atores que teriam dificuldade para monetizá-los satisfatoriamente por conta própria. Administramos esses ativos de modo a maximizar seu valor e, então, oferecemos estratégias de saída para a realização desse valor.
Entre nossos 650 funcionários há cientistas e engenheiros, analistas de patentes e advogados, especialistas em finanças e agentes de venda de licenças. Para levantar capital, temos uma equipe de relações com investidores. Nossas equipes de geração de temas estudam continuamente tendências no desenvolvimento de tecnologia e novas descobertas da ciência para tentar identificar as melhores oportunidades de investimento. Suas conclusões norteiam três grupos distintos. O primeiro é uma iniciativa interna de invenção que envolve 30 inventores da casa (incluindo eu) e uma lista de mais de cem extraordinários consultores em invenção que trabalham em meio período para nós. O segundo é nossa rede externa de mais de mil inventores em sete países. O terceiro é o grupo de aquisições, que compra patentes existentes ou participação nelas.
Inventar do zero. Fundei a Intellectual Ventures com Edward Jung, colega da Microsoft que hoje é nosso diretor de tecnologia. Inventores que somos, estávamos extremamente interessados em achar formas mais eficientes de criar invenções de alta qualidade. Queríamos erguer uma empresa semelhante ao laboratório altamente produtivo de Thomas Edison — Edison inventou o modelo do capital de invenção ao levantar dinheiro prometendo a investidores um certo número de patentes por ano —, mas com uma grande diferença. Edison ergueu seu laboratório em torno de um único indivíduo: ele mesmo. Muitos dos grandes gênios do século 19 trabalharam no Edison Labs, mas não por muito tempo. Estamos tentando criar uma empresa de invenção que possa crescer, mas não dependa de uma única pessoa. Um motivo é que queremos que nossa firma produza muito mais invenções em muito mais áreas do que a Edison Labs. Mas não é só. Também achamos que a melhor maneira de solucionar os complexos problemas de hoje é reunindo gente brilhante de distintas disciplinas para atacar um problema de forma sistemática.
Daí termos contratado cientistas e engenheiros que já exibem um impressionante histórico de inventividade numa ampla gama de tecnologias. Além disso, contratamos como consultores em invenção pesquisadores de primeira do mundo acadêmico e da iniciativa privada. Isso nos dá a capacidade de fazer contribuições sólidas em cerca de 50 áreas de tecnologia, de dispositivos médicos a software, de produtos eletrônicos a engenharia nuclear.
Uma equipe típica pode ter dez inventores — alguns físicos, por exemplo, um cirurgião, um químico, alguns programadores, um especialista em imagens digitais e engenheiros. Obviamente, é gente que não costuma trabalhar junto. Fazemos sessões de invenção nas quais focamos a equipe na resolução de problemas específicos (como reduzir índices de infecção hospitalar) ou pedimos que troquem ideias sobre possíveis maneiras de aplicar novas descobertas científicas (como metamateriais com propriedades eletromagnéticas não encontrados na natureza) à solução de problemas na vida real.
Essa abordagem multidisciplinar é extremamente eficaz na geração de soluções criativas para problemas espinhosos. Ultimamente, por exemplo, estamos trabalhando na busca de novas formas de combate à malária, um mal que todo ano acomete milhões e milhões de pessoas e mata cerca de um milhão de crianças. Nossas sessões de invenção — com biólogos, cientistas da computação, físicos, epidemiologistas e outros especialistas — já renderam várias abordagens promissoras. Uma delas é um sistema de controle de pragas inspirado na tecnologia militar usada para derrubar mísseis balísticos (alguns de nossos inventores foram líderes científicos do programa americano “Star Wars”). Nosso sistema usa computadores, câmeras e lasers baratos e de menor potência para identificar fêmeas do mosquito (o macho não transmite a doença) e, durante seu voo, destruí-las com um pulso de luz. A ideia pode soar absurda a princípio, mas fizemos um protótipo no laboratório e funcionou. Uma abordagem semelhante poderia ser usada para evitar o ataque de insetos a lavouras orgânicas — ou até a quem está curtindo um churrasco ao ar livre.
Fizemos uma série de sessões de invenção reunindo cirurgiões renomados de distintas áreas (coração, tórax, ossos e cérebro) e diversos inventores da casa. Pedimos aos médicos que fizessem listas de tecnologias que, a seu ver, seria maravilhoso ter. Isso gerou discussões excepcionalmente produtivas. Tivemos ideias para novos modelos de instrumentos cirúrgicos autoesterilizantes, ou que contornam áreas delicadas do cérebro em vez de penetrar nelas. Criamos maneiras inéditas de fazer dispositivos implantáveis que administram medicamentos de forma inteligente, onde e quando o organismo mais precisar; drenos inteligentes capazes de indicar se estão entupidos ou até se limpar sozinhos; parafusos de osso que podem ser ajustados remotamente com uma fonte de energia sem fio; e implantes minúsculos capazes de monitorar automaticamente os níveis de glicose no sangue de diabéticos. Nada mau para duas semaninhas de trabalho.
Outra sessão de invenção resultou num reator nuclear revolucionário, que praticamente elimina a necessidade de enriquecimento de urânio. Já que a tecnologia de enriquecimento também pode ser usada para a produção de armas, nossos projetos poderiam reduzir muito o risco de proliferação nuclear.
Produzimos milhares de invenções por ano dessa forma. Toda ideia é examinada e priorizada e entramos com o pedido de patente das melhores (entre um quinto e um terço delas). Em 2009, depositamos cerca de 450 pedidos de patente para, o que nos deixou entre as 50 maiores depositantes do mundo — à frente de empresas muito maiores como Boeing, Johnson & Johnson, 3M, Mitsubishi e Toyota.
Cultivar uma rede de inventores. Paralelamente ao processo interno de invenção, investimos nos últimos dois anos cerca de US$ 100 milhões em nossa rede externa de inventores. São, em sua maioria, acadêmicos, e o acordo que fazemos em geral é com suas instituições. No ano passado, o Instituto Indiano de Tecnologia em Mumbai escolheu nossa empresa para ajudá-lo a comercializar invenções produzidas por seus professores e funcionários.
Inventores da rede recebem o que chamamos de “pedido de invenção”, um documento que esboça necessidades técnicas desafiantes e aponta rotas frutíferas para o inventor explorar. Em seguida, apresentam ideias para avaliação. Nossa firma paga em dinheiro pelas ideias mais promissoras e também deposita o pedido de patente. O inventor e a instituição que o emprega recebem parte de quaisquer royalties auferidos. Até o fim de 2009 essa rede tinha produzido cerca de 4 mil ideias de invenção e mais de mil pedidos de patente.
Investir em invenções que já existem. Por mais robusta que seja, nossa rede de talentosos inventores jamais poderia garantir um volume suficiente de invenções para nossos fundos. Logo, compramos a maior parte das mais de 30 mil patentes em nossas carteiras. Com isso, queremos expandir o mercado ao oferecer a inventores alternativas novas ou melhores para lucrar com seu trabalho. Nossa equipe de aquisições, formada por estrategistas de negócios, analisa patentes de clientes atuais e potenciais, descobre o que precisam em termos de tecnologia e faz de tudo para montar carteiras que satisfaçam essa necessidade. Avaliadores e compradores analisam invenções no mercado e decidem se e quanto oferecer por elas.
Uma fonte importante de patentes é o famoso inventor solitário. Muitos deles não têm nenhum interesse em elaborar um plano de negócios ou criar uma empresa; preferem simplesmente licenciar o invento a um interessado e passar para a próxima grande ideia. Firmas de investimento como a nossa poupam esse inventor do trabalho de localizar e negociar com vários potenciais interessados separadamente, e quase sempre a oferta que fazemos é mais justa. Pagamos cerca de US$ 315 milhões até agora a inventores independentes, o que faz de nós uma de suas maiores fontes de capital novo.
Universidades e organizações de pesquisa sem fins lucrativos são uma segunda fonte de invenções para nós. Uma parcela muito grande da propriedade intelectual produzida no mundo acadêmico não é aproveitada porque as instituições não têm recursos para explorar plenamente seu potencial comercial. Instituições acadêmicas menores nos EUA e muitas universidades em outros países em geral não conseguem arcar com um escritório de transferência de tecnologia. Até as que contam com um braço desses vendem só uma pequena parcela de seus inventos — em geral, aquilo que foi criado inteiramente pela instituição e pode facilmente ser licenciado ou vendido. Isso porque quando cientistas de instituições distintas colaboram para produzir uma ideia (como costuma ocorrer), a posse da propriedade intelectual é complexa. A instituição reluta em investir os recursos necessários para estruturar um acordo. Ou talvez não se sinta à altura do desafio de monetizar uma invenção quando há muitos clientes em potencial, ou quando os clientes tendem a ignorar seus direitos à propriedade intelectual. Uma firma de capital de invenção pode assumir essa tarefa árdua porque distribui o custo fixo de grandes equipes de licenciamento entre várias transações. Até aqui, nossa firma deu assessoria em análise, patenteamento e licenciamento — além de dinheiro — a mais de cem instituições.
Aqui e ali, tiramos proveito de fontes mais fortuitas de patentes de alta qualidade, como empresas em apuros ou em bancarrota que colocam à venda sua propriedade intelectual, via leilão ou diretamente. Às vezes, são grandes empresas (Enron, por exemplo). Mas a maioria são projetos que deram errado por razões sem ligação com a qualidade de suas ideias. Ao oferecer um mercado para a dissolução de start-ups e de ideias à frente de seu tempo, reinjetamos dinheiro no sistema de capital de risco para que possa ser usado para financiar novos empreendimentos. Acordos desse tipo também podem resgatar invenções boas que, caso contrário, acabariam perdidas.
Há pouco, por exemplo, analisamos cinco start-ups de dispositivos médicos que atuavam na mesma área, mas que hoje se encontram em estágios distintos de implosão. Sua tecnologia é boa, mas o momento econômico simplesmente não comporta tantas empresas na área. Investidores de risco relutam em soltar mais dinheiro. Consideramos um acordo para combinar e reestruturar sua propriedade intelectual num pacote maior, que poderia então ser vendido a um projeto mais sólido ou a uma grande empresa como GE, Baxter ou Johnson & Johnson.
Por último, uma bela parcela das patentes que compramos vem de empresas grandes, saudáveis: já fizemos negócios com mais de cem companhias do Fortune 500 e equivalentes em outros países.
Para muitas empresas de grande porte, algo frustrante em relação à invenção é que ela é imprevisível e não pode ser controlada. Quando se lança à resolução de um problema, é comum a empresa chegar a algo totalmente inesperado, sem nenhuma ligação com sua área. A maioria tem dificuldade em explorar ideias que extrapolam seu core business.
Com um mercado de capitais operante, seria mais fácil para a empresa monetizar essas invenções. Se firmas de capital de invenção conseguirem criar tal mercado, daqui a 10 ou 20 anos seria normal para um diretor financeiro perguntar ao pessoal de P&D: “Estamos gastando o suficiente em invenções? Estamos vendendo o suficiente de nossas invenções?”. Em vez de ser o buraco negro que é hoje, a pesquisa seria um negócio rentável, no qual muito mais dinheiro seria aplicado. Aliás, essa é uma de minhas metas: conseguir verbas maiores de P&D para todos.
Transformar invenção em dinheiro
Tirando um punhado de áreas tecnológicas — como a de compostos com potencial farmacológico —, comprar, vender e licenciar patentes ainda é difícil. Custos de transação são altos. Já que a vasta maioria das transações ocorre a portas fechadas, é duro obter informações confiáveis sobre preços para ajudar compradores e vendedores a determinar o valor de uma invenção específica.
Para criar um mercado eficiente que extraia o pleno valor de invenções, é preciso haver market makers muito capitalizados. E, por muito, quero dizer bem mais do que os US$ 5 bilhões que já levantamos até aqui. Mas, para que investidores aportem esse volume de dinheiro, estratégias de saída viáveis — em outras palavras, opções para monetizar patentes — devem estar rotineiramente disponíveis. Eis um punhado de abordagens que estamos empregando no momento e outra que seria uma possibilidade mais adiante.
Agrupar patentes. Uma saída para extrair o pleno valor de patentes é reuni-las de forma inteligente para que o todo valha mais do que a soma das partes. Montamos grandes carteiras de patentes em tecnologia wireless, microchips de memória e outras áreas. Cada carteira em geral contém certas invenções já em uso, algumas com alta probabilidade de serem utilizadas no futuro e outras muito mais especulativas.
Qualquer patente dessas valeria algo por si só, mas como um pacote o valor é muito mais atraente, pois o cliente poupa o tempo e a despesa de localizar todo detentor de patentes e negociar acordos separados. O cliente pode facilmente obter todas as patentes de que precisa para lançar um produto inovador mais depressa e, ao mesmo tempo, reduzir o risco de ignorar uma licença necessária e ser pego de surpresa por um processo por violação de patente.
A maioria dos nossos grandes clientes entende essa abordagem e quer licenciar nossas patentes em lotes de mil ou mais. Muitos também “assinam” uma carteira para obter automaticamente uma licença à medida que novas invenções são adicionadas. Até aqui, nossa atividade de licenciamento rendeu mais de US$ 1 bilhão.
Isso posto, montar uma carteira dessas não é nada fácil. Um dos maiores desafios que enfrentamos é discernir que tipo de invenção tem mais valor para nossos investidores estratégicos e outros clientes. Não é um hábito de empresas discutir essas necessidades com terceiros. E, às vezes, simplesmente não pensaram tão à frente.
Criar uma start-up. Certas ideias são tão revolucionárias que nem mesmo uma firma de capital de risco ousa apostar nelas. E, aqui e ali, uma ideia é tão boa que seria loucura deixar um terceiro comercializá-la. Nesses casos excepcionais, uma firma de invenção poderia criar uma start-up.
Se uma invenção promete, mas o mercado está repleto de concorrentes, uma joint venture com um titã do setor pode ser a rota mais segura para a comercialização. Uma parceria é atraente quando o desenvolvimento da invenção exige não só um capital substancial, mas também experiência na área. É por esse motivo que estamos explorando parcerias com multinacionais de energia para comercializar nosso novo modelo de reator nuclear.
Lançar papéis lastreados em patentes. Carteiras de patentes de sucesso podem render bastante dinheiro. Logo, poderiam ser a base financeira de uma nova classe de ativos de investimento: títulos lastreados em patentes. Aliás, ações de empresas como a Qualcomm basicamente já funcionam dessa forma. Títulos lastreados em patentes simplesmente criariam um elo mais direto entre o desempenho de patentes e o retorno dos papéis.
É fácil imaginar que, quando a negociação de títulos lastreados em carteiras de patentes tiver início, haveria especulação em torno de patentes que exibissem potencial incomum. Empresas envolvidas com tecnologias correlatas — as que tentam comercializá-las, por exemplo — poderiam usar esses títulos para cobrir suas apostas. Essa possibilidade só irá se concretizar, no entanto, quando houver maneiras de atribuir um valor a esses títulos — algo em que estamos trabalhando.
Não faz muito, capitalistas de risco profissionais sequer existiam. O empreendedor tinha de pedir dinheiro emprestado àquele tio rico ou a amigos da faculdade. Até que, em 1946, Georges Doriot, um imigrante francês que chegou a general-brigadeiro do Exército americano e professor da Harvard Business School, fundou a American Research and Development Corporation (ARDC) como um veículo para criar e investir em empresas novas, inovadoras. Doriot trocou de dívida para capital o principal mecanismo de financiamento. Qualquer investidor interessado poderia aplicar seu dinheiro num dos fundos da ARDC, e qualquer aspirante a empreendedor poderia procurar a ARDC com um plano de negócios. O modelo de Doriot para arrecadar e investir capital de risco na escala necessária deu ao empreendedor uma forma padronizada e previsível de levantar fundos. É hora de fazer o mesmo para inventores.
A invenção é importante demais para ser deixada à caridade, e não vejo por que teríamos de deixá-la. Kleiner Perkins, Benchmark, Sequoia e outras grandes firmas de capital de risco não precisam ir ao Congresso implorar por um pouco mais de dinheiro para pequenas empresas. Pesquisas em áreas como astronomia e física fundamental, com horizontes muito longos e benefícios vagos para a sociedade, devem ser financiadas pelo governo. Mas o financiamento da invenção de tecnologias úteis capazes de trazer ganho num período relativamente curto de tempo — dez anos, digamos — não devia ser da alçada do poder público. Isso cabe à iniciativa privada. E os EUA, com sua combinação de talentos de pesquisa, abertura à inovação financeira e uma cultura de inventividade, estão perfeitamente posicionados para ser o centro dessa nova indústria.
O que será necessário para que o mercado de capital de invenção desabroche de vez? Um grupo de empresas — não só a Intellectual Ventures — tem de provar o conceito. Precisamos convencer mais gente a aceitar nossas invenções. Precisamos ampliar enormemente o número de empresas que licenciam nossas patentes. E dois ou três fundos de invenção precisam produzir grandes retornos.
Um mercado de capitais e uma indústria da invenção operantes podem permitir que inventores do mundo todo criem, a cada ano, centenas de milhares de invenções a mais que hoje. É claro que algumas dessas invenções serão tolas ou inúteis. Mas o que importa é aquele 1% que tornará nossa vida muito mais rica e melhor. Crie um mercado de capital de invenção, fomente uma indústria de capital de invenção e o ciclo virtuoso disso resultante certamente transformará o mundo.
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Nathan Myhrvold é presidente e um dos fundadores da Intellectual Ventures, empresa que fez da invenção um negócio Myhrvold foi diretor de tecnologia da Microsoft.
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